Uma verdadeira equipa

Que FFFRRRIIIOOO!
Até o aquecedor central de toda a cidade, vulgarmente chamado de Sol, nascera pálido e envergonhado.
Chegara o Inverno, em força e para ficar. As gotas de chuva miúda caídas na madrugada, acumularam-se em pequenas poças, agora espelhos finos de gelo. O Tareco, gato pardo vagabundo, magricelas, lambia-se e tiritava de frio no cimo de um murete. Um pouco mais abaixo, espreguiçando-se dolosamente, do outro lado da rua, lá estava o Golias, castanho, grande, mas igualmente magro, que nem um rafeiro sem dono, disfarçando as dores vindas dos ossos enregelados. Conheciam-se bem, respeitavam-se, mas à distância…
Estavam os dois deitando contas à vida, de estômago apertado após um fraco jantar de restos do lixo, à espera da bênção de um ossito, uma cabecita de pescado, ou mesmo um naco de pão. Que raio, os humanos pareciam cada vez mais forretas. Nesta altura andavam todos atarefados pela rua engalanada, cheia de luzes, com as montras bem decoradas de bolas, estrelas, bonecos, luzes cintilantes de todas as cores…mas o estômago cada vez mais apertado! Como que a gozar ainda mais da sua triste situação, todo o ambiente era envolvido por músicas repetitivas e felizes, que falavam de Jesus, do Pai Natal, de presentes e coisas boas!
À medida que a manhã avançava, os dois cafés (propriedade de gente somítica para com criaturas de quatro patas, mais preocupada a enxotá-las) e a taberna do tio Barnabé (campeão mundial de orelhudos), enchiam-se. As lojas e o bazar da Sra. Maria, de buço e patilhas quase selvagens, tinham uma afluência inusitada. A mercearia da Dona Josefa, viúva mas bem alegre e aperaltada, estava à cunha. O talho do mestre Zacarias, já sem dois dedos na mão esquerda devido a um ligeiro erro de cálculo ao partir uma pá de borrego, parecia uma loja na altura dos saldos. Bem, a padaria e pastelaria da Dona Clementina (virtuosa criatura de abonado nariz, exímia na doçaria conventual e, não sendo alta, com tanto de altura como de largura), tinha fila para além da porta, passeio adiante…E ninguém queria saber dum gato nem dum rafeiro, abandonados à sorte da rua. Era o preço da liberdade de viverem, sem dono nem família que os apoquentassem.
Os carros já circulavam com abundância e nada de lugares de estacionamento. Tareco e Golias, de orelhas alerta e do fundo dos seus olhos meigos (verdes os do felídeo e castanhos os do canídeo), presenciavam e registavam tudo. Talvez Jesus ou o tal de pai Natal se lembrassem deles!
Repentinamente, do nada, uma menina de fato azul e gorro vermelho, com três ou quatro anos, saiu a correr por detrás de uma carrinha para apanhar uma bola colorida no meio da rua. Na via, vinha um automóvel preto, conduzido por um “piloto” distraído, a ver as montras e todo o corrupio natalício. O gato Tareco viu e apercebeu-se do perigo. Instintivamente correu e felinamente, saltou para cima do capot do veículo. O condutor assustou-se e travou! Talvez demasiado tarde!… Todavia, Golias também se tinha apercebido da tragédia iminente. E tal como o Tareco, esqueceu as dores, correu como nunca e ágil como um gato, abocou a anca da criança, salvando-a dum destino cruel, talvez fatal e só parou em cima do passeio. Com a travagem, o gato foi parar dentro da caixa de uma carrinha estacionada. Mas nem gato nem cão se importaram. A menina estava viva e eles também estavam bem…ou quase. O Tareco perdeu três unhas da mão esquerda e duas da pata direita. Golias ainda tinha sido apanhado pela ponta esquerda do carro e tinha uma ferida, não muito bonita, na coxa direita. Bom, nada de muito grave e a menina, embora a chorar, já estava ao colo da mãe.
Então, o gato Tareco, perdeu o respeitoso medo, aproximou-se do grande canídeo, sentou-se junto dele e começou a lamber-lhe a ferida. Agora eram íntimos!
O condutor, de seu nome Zé, ainda a recuperar do susto, de lágrimas nos olhos observou os animais e disse para si, mas em voz alta, “ O diacho do bichano saltou de propósito para cima do carro e fez com que eu travasse ainda a tempo…o cachorrão completou o trabalho e salvou a criança. Não, ambos e em equipa (ainda que improvável), salvaram a criança”. Continuou a observar gato e cão, e alguém lhe disse que eram vadios. Não se aguentou mais e com alguns soluços à mistura bradou, “ Vadios? Acabaram de salvar a vida de uma menina e, provavelmente, a minha vida também. Vou ficar com eles!”.
Mais calmo, Zé fez uma festa ao gato desunhado e ao rafeiro dorido. Pegou neles sem grande resistência e colocou-os no banco traseiro do automóvel e disse-lhes, olhando-os nos seus olhos meigos, mas agora mais brilhantes, “Meus amigos, vou tratar de vocês na minha casa, a partir de agora também vossa casa. Vão fazer parte da família. Vocês são o meu melhor presente de Natal!”.

FIM

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