REVISITAR O TEMPO EM PAYMOGO

O meu bisavô chamava-se João Macias. Foi batizado no dia 28 de fevereiro de 1856. Faleceu em 1940. O pai dele, meu trisavô, chamava-se também João Macias e era natural de Paymogo, na Andaluzia. Tinha como avôs paternos João Garcia e Maria do Sacramento Romeiro e como avós maternos Santiago Macias e Marinha Joanna.
O meu avô chamava-se Santiago, o meu pai João. A mim batizaram-me Santiago. Estive para ser João Santiago, o que seria uma síntese perfeita de dois séculos de história. Teoricamente, deveria chamar-me Santiago Garcia.
Ir a Paymogo era uma aventura. Hoje, são cerca de 70 quilómetros entre Moura e a aldeia. Em 1973, não era assim… Do Rosal ia-se até Cortegana, depois a Almonaster la Real, depois, serra dentro, até Valdelamusa. De seguida Cabezas Rubias, em direção a Puebla de Guzmán (onde o carocha amarelo fez, uma vez, sensação, comentavam uns miúdos “mira qué coche tan bonito…”, que os VW eram uma raridade na Espanha franquista). Chegava-se a Paymogo depois de uns longos, lentos e penosos 170 quilómetros.
Fiz o caminho há dias, entrando por detrás do “castillo”, na verdade uma fortificação abaluartada dos séculos XV-XVIII. Foi um mergulho rápido no passado. Entre 1967 e 1972 foram muitas as idas a Paymogo, terra dos antepassados paternos. A máquina do tempo compacta as coisas. Constatei isso na curta passagem pela aldeia. O “casino” já não é da família e não me apeteceu entrar. Havia cartazes do Barcelona, do Atlético e do Madrid, que o tio João era democrático e tinha clientes de todos… Já não deve haver o bilhar nem a casa onde se jogava à batota. Recordo a bonomia do tio João, sorrindo detrás das suas múltiplas dioptrias, que lhe permitiram passar, numa noite de inverno, montado num burro, pelo meio de uma alcateia, convencido que eram os cães do monte vizinho que não o tinham reconhecido… Em frente do “casino” ficava o cinema de verão, uma esplanada que pertencia a uma senhora chamada Silvia.
As minhas ruas eram essas: a Calvo Sotelo, que já retomou o nome antigo Del Santo, e Calle Camioneta, onde o meu pai passou a infância. Mais o “callejón”, por onde me escapulia, quando não queria que a minha prima Maria me “detetasse”, e a Plaza de San Mateo.
Paymogo pareceu-me triste e com sinais de cansaço nas ruas e nos muros. Dos amigos daqueles dias vi o Angel, que está em Sevilha, mas mantém a casa dos pais. Já não há o “casino” nem a “tienda”. Tios e tias descansam hoje no cemitério, por detrás do “castillo”. Ali estão o meu bisavô, o meu avô e o meu tio. Terminei o ano de 2022 com esta peregrinação e com uma visita à minha prima Pepa. Sedimentar o passado é essencial para a construção do futuro. Coisa que nós, historiadores, bem sabemos.
Bom Ano de 2023!

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